Conferência – 1918: Amarante e o Mundo

O ano de 1918 trouxe à Humanidade os três maiores flagelos de que há memória: a Guerra, a Doença e a Fome. A primeira Grande Guerra arrastou o Mundo para um conflito que durou pouco mais de quatro anos, semeando a morte pelos campos de luta europeus, entre soldados e civis. Hoje, à distância, os estudiosos acreditam que a Grande Guerra poderá ter causado entre 10 e 12 milhões de mortes, sendo os civis mais duramente castigados, com números que apontam para 12 a 15 milhões. Em Abril desse ano cai sobre o mundo uma terrível doença, a Gripe Pneumónica, também chamada Gripe Espanhola. Uma calamidade sem paralelo na história da Humanidade que, para além dos mais de 50 milhões de mortos, foi o motivo crucial para a fim da Guerra, já que a doença não poupou as tropas em confronto e as grandes ofensivas planeadas para conseguir uma vitória ficaram-se pelas intenções. Amarante sofreu as consequências de forma tímida e resignada, vendo partir para a Guerra quase meio milhar de filhos seus, simples, sem qualquer preparação militar, confiando nos seus superiores, também eles inadequados às condições do conflito mundial. Muitos nem regressaram, ficando sepultados longe da sua terra, fazendo parte daquele mundo enorme chamado Soldado Desconhecido. Outros regressaram após alguns meses de cativeiro em território alemão e outros ainda regressaram para serem confrontados com uma doença que teve aqui um comportamento dramático.

Dois nomes devem ser lembrados: Amadeo de Souza Cardozo, o pintor modernista preparado para grandes voos, mas que se ficou pelos 31 anos, e que viu morrer de forma dramática alguns elementos da sua família com a doença que o viria a matar, e Ana Guedes da Costa, a primeira mulher enfermeira em Portugal, que arriscou a sua vida a tentar salvar os doentes atingidos pela Pneumónica, transformando a sua casa num Hospital, com um sentido de abnegação e de dádiva que a tornaram um exemplo digno do nosso orgulho e da maior admiração.

Escreveu Camões no Canto VIII de “Os Lusíadas”,

Ditosa Pátria que tais filhos teve…”

António Ramalho de Almeida

BREVE NOTA BIOGRÁFICA

António Ramalho de Almeida, natural da cidade do Porto, no ano de 1939, é médico, licenciado pela Faculdade de Medicina do Porto, e especialista de doenças respiratórias desde 1975. Foi Diretor de Serviço no Centro Hospitalar de Gaia, onde exerceu sempre a sua atividade até à sua aposentação em 2005. Docente no Instituto de Ciências Bio Médicas Abel Salazar, na área da Terapêutica da Tuberculose. Foi mobilizado para a Guerra do Ultramar como oficial de Cavalaria, prestando serviço na Guiné, entre os anos de 1964 e 1966. Desde o início dos anos 60 encontrou em Amarante os encantos desta cidade e desde aí partilhou a sua vivência entre família e bem-estar. Para além da sua actividade profissional dedicou muito do seu tempo à música e à escrita, sendo autor de vários livros como A Tuberculose, Doença do Passado, do Presente e do Futuro, (menção honrosa do Prémio Bial 1994), A trilogia da Tuberculose na vida e obra de António Nobre, Sanatório de D. Manuel II – contributos para a sua história, Contos do Sanatório, O Regicídio – um crime mais que perfeito, Hospitais de Gaia (em colaboração), O outro lado da Pneumologia, Guiné mal-amada – crónica da guerra, Os 125 anos do Clube de Leça e o último livro publicado O Outono está a chegar. Faz parte do Clube da Letra, um grupo de escritores e intelectuais brasileiros, tendo colaborado no livro Celetrando com um conto intitulado Maria de la Cruz. Também colaborou na obra Respirando Artes, da Sociedade Espanhola de Doenças Respiratórias com o texto Romantismo Tuberculose e Literatura. É nesta altura sócio do Centro Cultural de Amarante e membro do Grupo de Estudos Amarantinos.